História das Apostas Desportivas em Portugal: Do Placard ao Mercado Regulado

Boletim de apostas antigo em papel ao lado de um smartphone moderno com app de apostas

Quando comecei a analisar apostas em Portugal, o mercado já estava aberto e regulado. Mas para perceber onde estamos, é preciso saber de onde viemos. A história das apostas desportivas em Portugal é uma história de monopólio, transição e liberalização — e têm apenas dez anos no formato que conhecemos hoje. E uma história curta mas intensa, que transformou um país de boletins de papel em cafes num dos mercados de apostas digitais mais regulados da Europa.

A Era do Placard é da Santa Casa

Antes de 2015, as apostas desportivas em Portugal eram sinónimo de uma única coisa: o Placard. Gerido pela Santa Casa da Misericordia de Lisboa, o Placard era o único produto de apostas desportivas legal no país. Funcionava em pontos de venda fisicos — cafes, tabacarias, lojas da Santa Casa — e o processo era manual: olhavas para o boletim impresso, preenchias a seleção a caneta e entregavas ao balcao.

O Placard tinha as suas virtudes. Era simples, acessível e controlado. A oferta era limitada — resultado final, número de golos, algumas combinacoes — mas cobria os jogos mais importantes do futebol português e internacional. Para muitos portugueses, era a única forma de apostar legalmente, é a experiência fazia parte da rotina social do cafe.

A limitacao era evidente: sem plataforma digital, sem apostas ao vivo, sem cash out, sem a diversidade de mercados que o mercado internacional já oferecia. Os apostadores portugueses que queriam mais — melhores odds, mais mercados, aposta online — recorriam a operadores estrangeiros que operavam sem licença em Portugal. Este mercado paralelo cresceu ao longo dos anos, até se tornar impossível de ignorar.

A Santa Casa mantinha o monopólio com base em legislação antiga que não previa o jogo online. Quando a internet transformou o consumo de tudo — incluindo apostas –, o modelo monopolista tornou-se insustentável. O Estado estava a perder receita fiscal, os consumidores estavam desprotegidos, é a Uniao Europeia pressionava para a abertura do mercado.

A Liberalização de 2015: Um Novo Capitulo

O Decreto-Lei 66/2015 abriu o mercado português a operadores privados, nacionais e internacionais. Foi um momento de rutura com decadas de monopólio é o início de uma nova era. Os primeiros operadores a obterem licença entraram num mercado virgem com milhões de potenciais clientes.

A liberalização não foi total. O Estado manteve um papel regulador forte através do SRIJ (hoje ADC), definiu requisitos de licenciamento exigentes — incluindo um depósito obrigatório de 500.000 euros — e implementou um modelo fiscal único na Europa: a turnover tax de 8% sobre o volume de apostas à cota. A mensagem era clara: o mercado abre, mas sob regras estritas.

Os primeiros anos foram de crescimento explosivo. Os operadores internacionais investiram fortemente em publicidade e marketing, as apps de apostas tornaram-se omnipresentes, é o volume de apostas disparou. O número de operadores com licença cresceu progressivamente até atingir os 18 atuais com 32 licenças ativas. A transição do papel para o digital aconteceu em poucos anos — uma velocidade que surpreendeu até os mais otimistas.

Crescimento do Mercado: 2015 a 2025

Os números contam a história melhor do que qualquer narrativa. A receita dos operadores de jogo online cresceu de forma consistente todos os anos desde 2015, atingindo os 1.206 milhões de euros em 2025 — divididos entre 447 milhões em apostas à cota e 759 milhões em jogos de fortuna ou azar.

Ricardo Domingues, presidente da APAJO, descreveu a evolução como natural num setor que completa dez anos é que beneficiou do boom da digitalizacao do consumo. E uma leitura correta: o crescimento não foi apenas do mercado de apostas, foi do consumo digital em geral, e Portugal acompanhou a tendência europeia com um ligeiro atraso mas com uma intensidade impressionante.

O crescimento do número de contas foi igualmente expressivo. Os cerca de 5 milhões de contas registadas em 2025 representam, em teoria, quase metade da população adulta portuguesa — embora muitas contas estejam inativas ou pertenaam a apostadores que se registaram em multiplos operadores. O crescimento anual de novos registos já atingiu o pico e está em declinio: 910 mil novas contas em 2025, contra 1,16 milhões em 2024.

O período mais intenso de crescimento coincidiu com eventos desportivos de grande escala — Europeus e Mundiais de futebol — que funcionam como catalisadores de registo. Fora destes eventos, o crescimento é mais orgânico é dependente da penetracao digital é da eficácia do marketing dos operadores.

A Fase de Maturidade: O Mercado em 2025/2026

Em 2025, o crescimento anual da receita total foi de 8,49% — o mais baixo desde a liberalização. No segmento de apostas à cota, foi de apenas 3,23%. Ricardo Domingues confirmou que os dados de 2025 evidenciam uma desaceleração progressiva, característica de um setor que entra numa fase de maior maturidade.

A maturidade manifesta-se de varias formas. A concorrência entre operadores intensificou-se: as odds são mais competitivas, os bonus mais sofisticados e as funcionalidades mais avancadas. O regulador está mais experiente é mais ativo na fiscalização. E o debate público sobre o impacto social das apostas — jovens, publicidade, jogo problemático — atingiu uma intensidade sem precedentes.

O mercado ilegal continua a ser o principal desafio. Com 40% dos jogadores online em plataformas sem licença, a liberalização não resolveu totalmente o problema que pretendia resolver. As causas são múltiplas: a carga fiscal que inflaciona as odds no mercado legal, a agressividade do marketing dos operadores ilegais é a dificuldade técnica de bloquear o acesso a sites estrangeiros.

Perguntas Frequentes

Quando é que as apostas desportivas online foram legalizadas em Portugal?

As apostas desportivas online foram legalizadas pelo Decreto-Lei 66/2015, publicado em agosto de 2015. Os primeiros operadores privados começaram a operar com licença entre o final de 2015 é o início de 2016. Antes desta data, o único produto legal de apostas desportivas era o Placard, gerido pela Santa Casa da Misericordia de Lisboa.

O Placard ainda existe no mercado regulado?

Sim, o Placard continua a operar como produto de apostas desportivas da Santa Casa da Misericordia de Lisboa, disponível em pontos de venda fisicos. No entanto, o seu peso no mercado total e residual comparado com os operadores online. A versao digital do Placard também existe, mas compete num mercado dominado por operadores com plataformas significativamente mais avancadas.

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