Jovens e Apostas Desportivas em Portugal: Os Dados que Preocupam

Há dados que me tiram o sono. Este é um deles: 64% dos escolares portugueses entre 15 e 16 anos afirmam ter feito apostas desportivas no último ano. A média europeia é de 55%. Portugal está acima, é a diferença não é marginal. Depois de nove anos a analisar o mercado de apostas, percebi que o problema mais urgente não está nas odds, nos bonus ou na regulamentação — está na forma como as apostas se infiltraram na vida dos mais jovens.
Estudo ESPAD: Portugal Acima da Média Europeia
O ESPAD — European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs — e o maior estudo europeu sobre comportamentos de risco entre adolescentes. A edicao de 2024 trouxe dados sobre Portugal que não podem ser ignorados.
Os 64% de prevalência de apostas desportivas entre jovens de 15 e 16 anos colocam Portugal significativamente acima da média europeia de 55%. Mas o dado mais alarmante não é a prevalência geral — e a desigualdade de género. O ESPAD revelou que 80% dos rapazes e 43% das raparigas reportaram alguma forma de aposta no último ano. E o maior desfasamento de género registado em toda a Europa neste indicador.
Este número de 80% entre rapazes e extraordinário. Significa que quatro em cada cinco rapazes de 15-16 anos tiveram contacto com apostas desportivas. Estamos a falar de menores que, legalmente, não podem abrir conta em nenhum operador licenciado. O contacto acontece através de apostas informais entre amigos, utilizacao de contas de familiares, é acesso a plataformas sem licença que não verificam a idade.
Para contextualizar: Portugal não é um país sem regulamentação. Tem 18 operadores licenciados, um regulador ativo e mecanismos de verificação de idade obrigatórios. O problema não está no mercado regulado — está no ecossistema mais amplo que rodeia as apostas desportivas é que a regulamentação não consegue abranger.
Dados do SICAD: O Que Sabemos Sobre os 18 Anos
O SICAD — Serviço de Intervencao nos Comportamentos Aditivos e nas Dependencias — produziu dados complementares que completam o retrato. Um em cada cinco jovens de 18 anos já fez apostas online. E 9% destes jovens jogam mais de seis horas por dia.
Seis horas por dia. E um número que precisa de ser repetido para ser absorvido. Um jovem de 18 anos que passa seis horas por dia em plataformas de apostas não está a entreter-se — está num comportamento que qualquer especialista classificaria como problemático. E estes são jovens que acabaram de atingir a idade legal, o que significa que o padrão comportamental se instalou antes dos 18 anos.
Os dados do SICAD referem-se a 2023, mas não há razoes para acreditar que a situação tenha melhorado. O volume de apostas continuou a crescer, a publicidade intensificou-se, é o acesso móvel tornou as apostas ainda mais ubiquas. Se alguma coisa mudou, foi para pior.
O que falta nos dados do SICAD é um acompanhamento longitudinal: o que acontece a estes jovens três, cinco, dez anos depois? Sem esse seguimento, estamos a reagir a sintomas sem compreender a progressao da doença. A investigacao academica portuguesa está a começar a preencher está lacuna, mas os resultados completos ainda demorarao anos.
Investigacao Lusofona: 15-34 Anos em Detalhe
Um estudo publicado pela Universidade Lusofona, baseado em 2.028 respondentes entre 15 e 34 anos, trouxe dados que confirmam e expandem o quadro anterior. 67,6% dos respondentes afirmaram ter apostado dinheiro em algum momento. 8,1% apostam diariamente.
Pedro Hubert, psicologo clinico e diretor do Instituto de Apoio ao Jogador, foi direto sobre o que estes números significam: chegam muitos jovens de 18 e 19 anos com problemas gravissimos de jogo, é isso quer dizer que não começaram e não ficaram adictos num dia. A adicao é um processo gradual, e quando um jovem chega a consulta aos 18 anos com um problema grave, o início remonta tipicamente aos 14 ou 15 anos.
O estudo da Lusofona revelou também que a motivacao principal para apostar entre os mais jovens não é financeira — e social. Apostar é uma atividade de grupo, feita entre amigos, comentada nas redes sociais, integrada na experiência de ver futebol. Está dimensão social torna a prevenção muito mais complexa, porque não basta explicar os riscos financeiros — e preciso abordar a pressão do grupo é a normalizacao do comportamento. Quando apostar se torna parte da identidade social de um grupo de amigos, desistir e interpretado como exclusão, não como prudencia.
Medidas de Prevenção é o Papel das Escolas
Pedro Hubert sublinha que há um esforco grande de prevenção primária a fazer, começando pelas escolas, falando sobre o jogo como algo recreativo e sobre o facto de as probabilidades estarem a favor da casa. Concordo inteiramente, é acrescento: a prevenção nas escolas portuguesas e, neste momento, praticamente inexistente.
A educacao sobre jogo responsável não consta dos curriculos escolares. Não há programas estruturados de literacia financeira que incluam o tema das apostas. Os professores não têm formacao específica. E os alunos estão expostos a publicidade de apostas desde o momento em que ligam o telefone de manha. A desconexao entre a realidade dos jovens é a resposta institucional e enorme.
Alguns países já estão mais avancados. A Australia têm programas de prevenção integrados no curriculo escolar desde o ensino básico. O Reino Unido lancou campanhas de sensibilizacao específicas para adolescentes. Em Portugal, as iniciativas são pontuais, dependem de instituições como o IAJ e não têm escala suficiente para causar impacto significativo.
O que defendo é simples: uma hora por semestre, dedicada a explicar como funcionam as probabilidades, o que é a margem do operador, é porque é que a casa ganha sempre a longo prazo. Não se trata de demonizar as apostas, mas de armar os jovens com informação que lhes permita tomar decisões informadas quando atingirem a idade legal. A prevenção é a melhor proteção que podemos oferecer.
Perguntas Frequentes
Qual é a prevalência de apostas entre os jovens portugueses comparada com a Europa?
O estudo ESPAD de 2024 indica que 64% dos escolares portugueses de 15-16 anos apostaram no último ano, comparado com uma média europeia de 55%. Portugal regista também o maior desfasamento de género da Europa: 80% dos rapazes e 43% das raparigas.
Que medidas de prevenção existem nas escolas portuguesas?
Atualmente, não existem programas estruturados de prevenção do jogo nas escolas portuguesas integrados no curriculo escolar. As iniciativas existentes são pontuais é dependem de instituições como o Instituto de Apoio ao Jogador. Especialistas defendem a integracao de literacia sobre jogo nos programas escolares.
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